MARCIO CERQUEIRA - FIGURANTE DA SELETIVA DA HOLANDA
(CAMPEONATO MUNDIAL DA FCI 2009)

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23 Abril - Chegada

Cheguei em Amsterdam às 11:30, (11h e 20min de vôo). Willem já me aguardava no desembarque internacional. Do aeroporto de Amsterdam (Schiphol) até a casa do Willem (Eksel na Bélgica) levamos mais 1h30min de carro. O trânsito não estava fácil, como aqui, eles também tem problemas com o tráfego.
A noite fomos a um clube de IPO. Treinamos a cadela Luna van het Goede Bloed (SchH III com 281 pontos - A:99 B:88 (sem sentar -5 pts) C:94). O Willem comprou esta fêmea no ano passado e vem treinando-a desde então. Ela irá competir neste final de semana pelo titulo da região, se ganhar, o Willem será o campeão da região pela terceira vez e com cães diferentes. Fotos de Luna abaixo:



24 Abril - Faro, obediência e proteção

Fizemos faro às 18:30 em terra arada com a cadela Luna van het Goede Bloed. Fomos a noite para Valkenswaard (aprox. 50km de Eksel), no clube HDG Aalst-Waalre clube onde será a seletiva. Aqui eles teem o costume de deixar que os figurantes da prova fiquem disponível por três dias para que os competidores possam treinar. Mas isto só acontece nas seletivas, não nas grandes competições (Wusv, campeonato belga ou holandês, FCI). Acabei fazendo a primeira parte da proteção de todos os cães e no lançado o figurante Erik Van Esch.
Outra informação é que aqui na Holanda e na Bélgica, sempre é usado o maior figurante para o lançado (homens entre 1,90 a 2,00m) e nos exercícios da primeira parte os mais baixos (homens em torno de 1,80). Eles fazem isto porque geralmente os figurantes menores são mais rápidos e podem testar o cão na primeira parte melhor que um figurante muito grande e lento. Já no lançado eles acreditam que o figurante tem que ser bem grande para que realmente o cão mostre para o que veio e desta forma possa se avaliar o real temperamento do cão.
Abaixo algumas fotos durante o treino:




25 Abril - Faro, obediência e proteção

Acordamos por volta das 7:00. Ajudei o Willem a tratar de seus cães e fomos fazer faro. Marcamos a pista nas proximidades da casa do Willem, em um terreno de grama alta, pois a competição que o Willem irá participar no domingo terá o faro feito em uma grama alta.






26 Abril - Competição no clube "De Wiers"

Hoje tivemos a competição da Província de Africhtingskampioenschap Kringgroep "de Wiers" em Kessel. O Willem ficou em segundo lugar com a cadela LUNA (A:95, B:90 e C:90). Dessa forma ele qualificou-se para ir ao nacional pela Holanda (tipo campeonato brasileiro). A prova contou com 16 cães, mas posso garantir a vocês que muitos deles são piores que os nossos. Tanto na Holanda como na Bélgica existem pessoas que estão praticando o esporte como um hobby.
Independente de ser uma prova provinciana, tudo foi organizado como um campeonato mundial. No faro eles teem o fiscal de pista. Homem que irá analisar a qualidade das pistas marcadas para a competição. Também é este homem que diz quantas pistas cabem no local escolhido e como será a distribuição delas. Todas as pistas do CT3 são diferentes. Eles levam os competidores para suas posições, faltando 20 min para começar o faro do primeiro competidor. O juiz assume uma posição de somente julgar. Ele não se incomoda com nada, ou seja, não recebe apresentações, não fala sobre enforcadores, medida das guias ou peitorais de faro, tudo é informado pelo fiscal do faro. Na obediência e na proteção acontece a mesma coisa, as apresentações são feitas para o fiscal do campo e no final das duas o competidor vai até o juiz se apresenta dizendo que chegou o final da seção, então assim as duplas seguem para o local das notas e o juiz faz o comentário a respeito de cada trabalho. Outra coisa que me chamou muito a atenção aqui na Holanda, foram os gritos que os figurantes dão o tempo todo. A pressão imposta na proteção é infinitamente maior do que a pressão que imprimimos em nossos cães no Brasil. Após a prova, fui conversar com os figurantes e eles me disseram que isto é uma característica dos figurantes holandeses, na Bélgica eles fazem um pouco porém é na Holanda que o bicho pega (a nivel de gritos). As varadas foram extremamente fortes. Na hora da premiação todos teem que estar no campo com seus cães. Independente do competidor ter ido bem ou mal, tem que ficar e ver seus concorrentes subindo ao pódio. No Brasil como sabemos, tem vários competidores que ficam exaltados e acabam indo embora. Se isto ocorre aqui na Holanda ou na Bélgica, o competidor fica proibido de competir por pelo menos seis meses. Eles me disseram assim: "Isto é uma falta de respeito com o esporte e com as pessoas que estão presentes no evento." As premiações ao contrário do Brasil é feita de forma rápida e sem muito blá, blá, blá. Ganhou, ganhou, pegue seu troféu e vá confraternizar com seus amigos. Bebendo cerveja é claro, heheheheheheheheheehehheheheehehehe...







27 Abril - Documentação

Partimos cedo para Bruxelas para concluirmos as documentações necessárias para eu poder embarcar a filhote INDRA VAN HET GROOT WEZENLAND filha de Doris v. Giliannes com Inca vom Dörequelle. No período da tarde não faremos nada, pois desde o dia em que cheguei aqui, fiquei totalmente gripado, parece que levei uma surra, acredito que pela exposição continua do ar condicionado do avião e mais as mudanças climáticas aqui, me fizeram ficar bem doente. Abaixo fotos do filhote.




Indra Van Het Groot Wezenland (filhote do meio)


28 Abril - Clima ruim X Saúde ruim (Não sei o que é pior, hehehe)

O Willem esta atribuindo a minha chegada ao clima ruim (brincadeira dele). Desde o dia em que cheguei a temperatura aqui só faz cair. Hoje estamos com uma média de 8 graus. Várias pancadas de chuva e o pior, venta muito. O vento dá uma sensação de que estamos abaixo de zero. IMPRESSIONANTE, E AQUI É PRIMAVERA. Meu resfriado agora esta em fase final, porém o Willem começou a ficar resfriado ontem, hoje ele está de cama com o corpo todo dolorido, do mesmo modo que eu estava antes. Eles aqui estão morrendo de medo da tal Gripe Suína, até chegaram a me perguntar se eu não corria o risco de estar com a tal doença. Como sempre não pude deixar de brincar e disse que estava com a Gripe da Galinhagem e disse para eles pararem de serem frescos (pimenta nos olhos dos outros é refresco!!!). Mas como eu, o Willem também já foi medicado e agora é só dar tempo ao tempo. Provavelmente hoje será mais um dia em que passaremos em casa. Amanhã realizarei o segundo treino como figurante da seletiva holandesa. O treino de proteção começará às 20:30. Amanhã logo pela manhã, iremos viajar duas horas de carro até o sul da Holanda para pegarmos uma pastora alemã preta (SchH3) que o Willem comprou.

Todos nós lembramos da qualidade da figuração do campeonato mundial de 2004 (WUSV). Neste último final de semana Robbie de Jong (figurante do lançado), recebeu uma medalha com uma pedra de diamante cravada no meio. Foi homenageado pela sua atitude pelo esporte, pelo esforço em fazer qualquer cão se tornar um cão melhor, pela ajuda prestada a todas as pessoas que almejam praticar o esporte. Acredito que este sim é um exemplo a ser seguido por nós e que este fato faça com que as pessoas parem de pensar em somente se promover e comecem a promover o esporte.

Obs: Robbie de Jong estará também participando desta seletiva pela Holanda.

Vejam a homenagem através do link:
http://www.vdhafdelingzuidholland.nl/afdeling/speldrobbiedejong.htm


Assistam também através do site abaixo, os videos da última seletiva da Bélgica:
http://www.vomkronardswald.be/super%20ca%202009.htm


29 Abril -
Pequena viagem / Segundo treino de proteção da seletiva

Saímos às 10:00 da manhã para irmos buscar a pastora que o Willem comprou. Entre o deslocamento de ida e volta e mais a negociação, gastamos seis horas. Aqui na Holanda desde 01 Jan 2004, todos os cães para obterem o Kkl (seleção 1 ou 2), devem ter suas radiografias tiradas dos cotovelos e coxofemural. Na Bélgica e na Alemanha isto já é uma regra a muito tempo. Eles tem como costume ao estar negociando cães com mais idade, mandarem fazer por conta própria uma radiografia das costas dos cães.
Aguardamos até às 18:00 e fomos para o clube onde a competição ocorrerá, pois hoje será o segundo treino oficial com os figurantes da prova.


30 Abril - Último treino










01
Maio - Ficamos em casa


02 Maio - Dia da seletiva

Chegamos ao clube por volta das 09h00min. No catálogo da competição tinham 16 participantes inscritos. Entre os cães tinham gronendal, rottweiler, malinoas e pastores. Por ser uma seletiva, cada seção foi julgada por um juiz diferente.
O faro já havia começado e no campo do clube rolava as primeiras seis obediências. Assim que os primeiros cães acabaram a obediência, nós entramos para a primeira leva de cães na proteção.
Havia bastante pessoas no clube para apreciar o evento, porém todas aquelas pessoas estavam lá por dois motivos:
1- última seletiva da Holanda para a FCI 2009;
2- figurante brasileiro.

Bom, que já esteve na Europa sabe que o povo daqui geralmente não te dá muito papo. Eles ficam em seus grupos e deixam as coisas rolar. No início da competição as pessoas me olhavam como se eu estivesse ali para tirar algo deles. Não tive como mudar esta impressão, então deixei para que eles tirassem a conclusão após o meu trabalho.
Para a minha infelicidade o primeiro cão era um Gronendal que já estava qualificado para participar no campeonato nacional de pastores belgas. Ele já chegou à barraca latindo chamando o vovô, na fuga ele mordeu praticamente com os caninos e demorou a largar quando eu parei. No reataque o cão recebeu a primeira varada, largou da manga, voltei a atacar, ele mordeu, tomou a segunda varada, ele largou, parti novamente para cima dele e ele fugiu do campo. Os olhares da platéia para mim eram como se eu tivesse feito tudo errado o caminho do meio do campo até a sexta barraca tornou algo penoso e difícil de fazer. Quando cheguei próximo da barraca o público começou a cochichar (pra mim eles poderiam falar normalmente, pois eu não falo e nem entendo o holandês). Eu olhava para o Willem que estava sentado próximo do campo para poder tirar fotos e ele fazia gestos do tipo, vai em frente, manda ver. Então entrou o segundo cachorro (uma fêmea do canil valkenplaz), e detonou na proteção, tudo foi muito bem feito e ela obteve 95 pontos na proteção. Após este cão, eu senti que a platéia começou a relaxar e achar que um figurante brasileiro poderia, talvez, fazer um bom trabalho em nível de proteção de prova. Quando a competição acabou, para minha total surpresa, todos os juízes, auxiliares, competidores, chefes de equipes, enfim, todos vieram me parabenizar pelo trabalho executado, eles elogiaram todos os meus fundamentos, desde a barraca até o transporte frontal. Curiosos, eles começaram a me perguntar se a escola de formação de figurantes no Brasil é muito severa. Tive que dizer, que nós não temos escola, que o brasileiro quando quer algo ele corre atrás, estuda, treina, encontra pessoas que possam ajudá-los e acima de tudo, faz por amor.
É estranho, no início da competição eu me senti como Davi na jaula com os leões. No decorrer da mesma, eu já estava dominando os leões, e no final da prova eu tinha a chave da jaula. Aquelas pessoas não sabem o quanto é difícil ser figurante no Brasil. Que nós figurantes (Caio, Waldir, Nil, Leandro, Alves, Alexandre, Marcos, Max, Marcel, Loiz, Raphael), temos que crescer por nós mesmos, ou através de orientações dadas pelos nossos pares. Então quando eles começaram a me dar saudações pelo serviço bem feito, foi como se tivessem reconhecido o bom trabalho desempenhado por nós brasileiros. Para vocês poderem ter uma idéia, a Holanda possui 20 figurantes de nivel "A", isto significa pessoas qualificadas para participarem de provas nacionais (seletivas e campeonatos) e internacionais (mundiais). Todos os anos estes figurantes passam por testes para saberem se podem continuar no nivel A ou se devem mudar de nivel. Testes estes que irão verificar se o figurante tem condições físicas e técnicas de atuarem em competições.
No encerramento da prova, tudo se repetiu, após ganharem seus troféus ou certificados, vieram me cumprimentar, inclusive o dono do gronendal.
Então minha gente o negócio é trabalhar, nós não estamos tão distante da realidade, em minha opinião várias pessoas no Brasil já possuem conhecimento suficiente para estar formando bons cães. Temos que arregaçar as mangas e trabalhar em prol do esporte e conseqüentemente de uma melhor qualificação dos cães do Brasil nos futuros campeonatos mundiais.












































03 Maio - Conclusões finais

Esta viagem para mim, não serviu apenas para estar reforçando meu curriculum, mas também como uma grande aprendizagem. Tive a oportunidade de conversar com cinco juízes, sendo que três deles de diferentes países. Trabalhei com mais de seis figurantes diferentes e de ponta. Na Europa toda, fala-se que no futuro IPO e SchH não terão mais diferenças. Eles estão a cada ano que passa, estreitando a relação entre as entidades. Na Bélgica e na Holanda já é possível treinar um P.A. num clube de malinoa ou rottweiler e vice e versa. O esporte na Europa já não é tão forte quanto 15 anos atrás. Cada vez mais os jovens procuram por outras coisas. Os cães já não os atraem mais. É preciso muita dedicação e eles não estão nem um pouco interessados nisto. O esporte aqui esta diretamente ligado a família, ou seja, se os pais forem praticantes do esporte, talvez seus filhos o pratiquem no futuro. Conseguir novos figurantes também tem se tornado complicado. Os poucos que tem, são pessoas que já tem certa fama e à medida que vão sendo chamados para provas importantes, estão se tornando estrelas do esporte e começam a mostrar uma série de atitudes que os clubes reprovam. Diante de tantas diversidades, figurantes e componentes dos clubes têm suas controvérsias e acabam indo para lados diferentes. Não preciso dizer que com tudo isto quem sofre é o esporte. Cada vez mais treinadores de sucesso estão formando seus próprios figurantes e mantendo-os o maior tempo possível sob sua tutela. Mas o que pude constatar é que a grande maioria dos participantes nos clubes são pessoas acima de 40 anos. Os mais velhos são os mais empenhados. Dos clubes que estive, eu pude contar não mais do que três a quatro pessoas com idade inferior a 25 anos. Ao contrário do que muita gente no Brasil pensa, os europeus são extremamente chatos com relação a cães. Cada ano que passa, eles criam mais regras de forma que as pessoas pensem duas vezes antes de adquirir um cão. Esta imagem de que temos que é só pegar nossos cães e irmos para a Europa que tudo correrá bem, não existe, talvez em pouquíssimos lugares, porém você precisa conhecer estes lugares antes. No ano passado quando estive na Bélgica já havia sido difícil conseguir lugares para faro. Os fazendeiros tem se mostrado bastante relutante em relação a liberar suas propriedades para que os treinadores possam realizar o faro. Grande parte destes problemas se deve aos próprios treinadores, pois não prestam atenção no que seus cães fazem e depois recebem como recompensa o não dos fazendeiros. Então diante destes fatos, eles estão estudando formas de juntar os grupos e fazer com que o esporte volte novamente a ter força. É claro que as competições continuarão a ser em seus distintos lugares, malinoa com malinoa, pastor com pastor e assim por diante, porém eles procuram através destas atitudes, fazer com que as pessoas possam treinar seus cães em qualquer tipo de clube, seja ele de IPO ou SchH.